QUEM GUARDA, TEM !

É impossível dizer quando os registros de receitas surgem na humanidade, existem registros desde a era primitiva, desenhos mostrando o homem dominando o fogo e iniciando preparações de carnes oriundas de caças. Ao longo do tempo estes mesmos registros após o surgimento do papel, salvam as receitas que antes eram passadas entre gerações, livros surgem e preservam as receitas. O mais antigo livro de cozinha de que há conhecimento é atribuído ao grego Arquéstrato (séc. IV a.C.) mas somente na Idade Média é um tratado em francês antigo, do início do séc. XIV, O Viandier de Taillevent (1380) e o Ménagier de Paris (1392) foram, verdadeiramente, os primeiros dispensários de cozinha, difundindo modos de preparação, técnicas de cozinha e receitas.

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Ao longo dos séculos as receitas foram sendo alteradas nas mãos dos cozinheiros, independentemente de profissionais ou caseiros. A migração dos cozinheiros para novos territórios e conhecimento de outro ingredientes fizeram com que as receitas fossem regionalizadas e reescritas.

Porem com a “gourmetização”, a originalidade das receitas foi deixada de lado e juntamente a sua história. Acredito que a preservação da forma inicial de uma receita é a melhor maneira de preservar historicamente e culturalmente um povo, um momento da humanidade.

7cfbd5a15307839fab709f67473215c8_14649638040074_169909542No Brasil uma das formas de fazer isto sem depender da vontade de se passar de “mãe para a filha” é através de decretos. A Constituição Federal de 1988, em seus artigos 215 e 216, ampliou a noção de patrimônio cultural ao reconhecer a existência de bens culturais de natureza material e imaterial. Nesses artigos da Constituição, reconhece-se a inclusão, no patrimônio a ser preservado pelo Estado em parceria com a sociedade, dos bens culturais que sejam referências dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. O patrimônio imaterial é transmitido de geração a geração, constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) define como patrimônio imaterial “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos os indivíduos, reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural.” Esta definição está de acordo com a Convenção da Unesco para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, ratificada pelo Brasil em março de 2006.

Captura_de_Tela_2015-03-17_as_17.10.59.pngPara atender às determinações legais e criar instrumentos adequados ao reconhecimento e à preservação desses bens imateriais, o Iphan coordenou os estudos que resultaram na edição do Decreto nº. 3.551, de 4 de agosto de 2000 – que instituiu o Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial e criou o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI) – e consolidou o Inventário Nacional de Referências Culturais (INCR).

A culinária brasileira é repleta de receitas antigas, remotas da colonização ou da mistura de culturas, portugueses, índios e negros por exemplo. O pão de queijo mineiro, o tacacá paraense, cuscuzeira do Muquém alagoana são exemplos de manifestações exclusivas do brasil protegidos por Lei.

Não é um processo simples mas depende da boa vontade de setores da sociedade e poder publico. Leva anos pois são feitos levantamentos documentais, relatos, imagens que comprovam a originalidade do item em questão. O processo pode ser feito através de Decreto Lei ou tombamento por órgãos competentes. Uma vez feito a proteção, a manutenção da historia desta manifestação cultural ficará salva por gerações.

Infelizmente o Brasil, demora para fazer isso, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) detém apenas 26 registros de itens relativos à gastronomia, enquanto a França registou até 2016 mais de 2 mil manifestações, entre receitas, produtos e artefatos. Além disto a própria cozinha francesa é tombada pela UNESCO. Em 2014 o Chef de Cozinha Alex Atala liderou um abaixo-assinado intitulado “eu como cultura” em busca da aprovação do Projeto de Lei 6.562/2013 que pedia a inclusão da gastronomia como manifestação cultural no Brasil, uma vez aprovada, recursos da Lei Roaunet poderiam ser aplicados na gastronomia brasileira, porem em 31 de janeiro deste ano, o projeto foi arquivado. download

Inicialmente precisamos relembrar daquelas receitas de família, que provavelmente vieram de um lugar, da origem dos nossos antepassados, mas também precisamos relembrar lugares e receitas nos marcaram, por onde passamos. Só é lembrado quem é visto !

Experimente em uma conversa entre familiares e amigos, falar sobre comidas do passado. Certamente você ficará surpreso.

Quem guarda, tem!

 

Fonte:

https://www.sitedecuriosidades.com/curiosidade/origem-dos-livros-de-receitas.html

http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/234