Entre panelas no exterior

Apesar de existirem no Brasil, segundo senso do MEC em 2017 aproximadamente 165 escolas de curso superior de gastronomia, muitos brasileiros se aventuram em embarcar para o exterior em busca de conhecimento em nomes tradicionais. Le Cordon Bleu, International Culinary Center, Ecole Lenôtre Paris, são endereços mais procurados. Na América do Sul temos boas escolas e é sobre a minha experiência no Instituto de Artes Culinárias Mausi Sebess em terras argentinas que irei escrever um pouco.

imagesEm janeiro de 2012, após concluir o curso Tecnológico em Gastronomia aqui no Brasil, embarquei para Buenos Aires para encarar uma formação em Cozinha Internacional. Todo um planejamento foi feito para que pudesse passar quatro semanas concentrado em um curso que era extremamente exigente. Além do aprendizado dinâmico, onde cada aluno tinha sua bancada de trabalho (incluindo panelas, fogões e utensílios) tínhamos as temidas provas, três por semana.

O Instituto foi fundado em 1994, pela chef Mausi Sebess, diplomada pela escola Ritz Escoffier de Paris e seu marido, Pedro Sebess que ficava na administração, em 1998 iniciou os cursos intensivos para estrangeiros. Hoje está localizada no distrito de Vicente López em um prédio de 4 andares que comporta diversos cursos, desde cozinha até administração gastronômica. Para me acomodar pelo período de estudos optei em alugar um apartamento mobiliado no bairro de Belgrano, cerca de 9 km da escola onde o trajeto era feito por transporte publico. Cercado de tudo para me dar suporte, supermercados, farmácia, bancos, lazer e principalmente lavanderia, pois sou um desastre nessa parte.

A rotina de aula começava às 9hs da amanha, devidamente uniformizado e impecável, havia a conferencia por parte do Professor Auxiliar Gustavo Larrea para começar o dia. Nosso “Mestre” era o competentíssimo, carismático e rigoroso Alfredo Calderón, que nas horas vagas ainda subia nos palco como ator de teatro. A minha turma era formada por 6 pessoas, Ramiro (argentino), Jhaira (colombiana), Yoni (israelense) os brasileiros Raul (o Zero Dois, pois foi o primeiro a pular fora do curso por conta da rotina pesada) e o figura Ricardo Rodex. Este se tornou um grande amigo, grande chef de cozinha de Juiz de Fora (MG). Não tinha um dia onde a gargalhada não tomava conta da cozinha por conta das nossas “travessuras”. Um momento emblemático ficou registrado, descascar quilos de cebolas extremamente ácidas, choramos litros. Até hoje mantemos contato relembrando as garrafas de cerveja Quilmes e empanadas na padaria ao lado da escola.

A metodologia de ensino adotada pela Mausi Sebess é incrível, não parávamos um instante, quer dizer, somente nos míseros quarenta minutos para almoçar, pois ainda havia muito o que fazer até o fim da tarde. Não eram apenas execuções de receitas, cada uma delas tinham diversas técnicas de culinária. Cada aluno preparando sua produção sendo observados o tempo todo pelo professor Larrea que não deixava passar nada. Depois vinha a avalição de Calderón, Masterchef é piada comparada à avaliação dele. Esse rigor de Calderón era apenas na cozinha. Fora dela, seja no horário do almoço, seja no final da aula, era divertidíssimo. Sempre com a musica de fundo: “…nossa, nossa, assim voce me mata, ai se eu te pego…” sucesso de Michel Teló que tocava em todas as rádios de Buenos Aires (meu Deus !).  Alfredo Calderón é para mim a maior referencia de ensino de professor de gastronomia que já tive na vida. Seus ensinamentos e conselhos sigo até hoje. Lembro quando temendo uma prova teórica com absurdas 30 questões, ele chegou (batendo do meio peito) dizendo: “a gastronomia está ai dentro, hora de colocar para fora!”

Foram três semanas de aulas intensas até chegar a última e temida prova pratica final. Ali estavam apenas eu e Yoni, os outros foram parando pelo caminho.  Ufa, media 8,65. Passei !!

A Mausi Sebess este ano completa 25 anos, inúmeros alunos passaram por lá, muitos pararam, outros seguiram e estão espalhados pelo mundo, competentes e bem preparados. Tenho saudade daquele período em 2012 que passei por lá, o ritmo, a cobrança, a diversão. A cidade de Buenos Aires é linda, me encantei por suas ruas, praças, fiz muitos passeios nas horas vagas (que eram poucas por conta do estudo intenso para as provas) mas a vivencia ali dentro, desde a chegada com a receptividade do porteiro e da turma da secretaria até o contato com os professores, não saem da memória. Vi apenas uma vez Paulo Sebess (filho dos fundadores) mas foi um contato muito simpático, ele me contando suas andanças pelo Brasil.

O conhecimento é válido à qualquer momento, seja no Brasil ou exterior. Uma experiência fora do país é incrível. A troca de culturas é fantástica. Na minha passagem por terras portenhas convivi com argentinos, uruguaios, colombianos, israelenses. Trocamos ideias, contamos nossas historias e no final, formamos amizades que duram até hoje. Se eu gostaria de passar por isso novamente ? Quantas vezes fossem possíveis. Sair da zona de conforto é um grande passo, tanto pessoal como profissional. Vale a pena.

2012-01-20 16.02.07

 

 

Fonte:
infood.com.br

letrassaborosas.com.br