Estamos sendo “cozidos”?

Na ultima semana, a gastronomia foi acordada com a noticia do suicídio do chef franco-suíço Benoit Violier. Dono de três estrelas Michelin com o seu Restaurant de l’Hotel de Ville de Crissier, Violier passa a integrar a triste lista dos homens da gastronomia que inexplicavelmente tiram a vida.

Pressão? Limite? O que acontece nesse nosso mundo?

vatelNa historia conhecemos o caso do francês François Vatel, célebre cozinheiro e maître d’hôtel francês, a quem foi atribuída a invenção do creme de chantilly. Em 23 de abril de 1671 ele tirou a vida com um punhal após saber que o peixes que ele aguardava para um jantar em homenagem ao Rei Luís XIV. Chegou a dizer: “Não suportarei mais essa desgraça”, referindo-se ao problema que havia acontecido na mesma semana, quando peças de faisão não foram o suficiente para um serviço. Intenso, Vatel primava pela busca por uma perfeição que apenas ela vislumbrava.

Não é comum mas também não é raro registrarmos tragédias como esta. Desde a Nouvelle Cuisine a pressão exercida sobre os chef só aumenta. Perfeição sem necessidade. Os chefs criaram um ambiente competitivo dentro de suas mentes, eles acham que o público é implacável, frio. Não confiam em ninguém, todo e qualquer cozinheiro é uma ameaça ao seu reinado.medo

No filme Burnt (Pegando Fogo – 2015) o personagem Adan Jones vive os altos e baixos desta pressão imensa. Seus concorrentes são seus admiradores, ele assume: “estou com medo”, sentimento presente entre os chefs. Não podemos falhar mas esquecemos que somos humanos, nos tornamos pessoas duras, reclusas em um mundo escuro, diferente das cores que nossos pratos apresentam.

BL-epoissesEm 24 de fevereiro de 2003, outra vez o mundo gastronômico entrou em estado de choque, Bernard Loiseau, chef 3 estrelas no Guide Michelin, tirou a própria vida com um tiro de rifle em sua casa. Mesmo sendo considerado extremamente talentoso, Loiseau escondia atrás de um sorriso cativante, um comportamento melancólico. Seu talento ficou bloqueado, assim foi relatado no livro “O Perfeccionista”, do jornalista e escritor Rudolph Chelminski. Como o título sugere, Bernard era um perfeccionista. Mas não só isso. Era um perfeccionista bipolar e desde muito cedo mostrava traços megalômanos em sua personalidade.

Agora é a vez de Benoit Violier.

O que faz um talento raro que aos 44 anos alcança o top dos restaurantes, conquistando na disputada lista Michelin, sua terceira estrela. Muitos chefs com uma capacidade técnica extrema não chegamBenoit-Violier a ponta de uma das estrelas. Violier era bem-sucedido, rico, famoso, premiado. Não sabemos o que passa uma mente com tamanha pressão. Alcoolismo e dependência química agora estão presentes na vida de muitos cozinheiros, horas incessantes de trabalho, esgotamento físico e mental, dilemas pessoais, abdicações, privações. “A tampa da panela cede !”. Quem será o próximo ?

Não precisamos deste campo minado. Respirar, concentrar, focar. Isso preocupa. Será que a nova geração de aprendizes de cozinha que buscam o estrelato estão preparados para isso ? Não existe glamour. Estamos realmente sendo cozidos ?

Fonte: http://www.cozinhadeideias.com

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